segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Menina Chorona


Lisboa vê-se encharcada em lágrimas. Sem saber se de rir ou de chorar, decide que o melhor é rir para não desabar. 

Enquanto isso, os ratos entram em desambandono por não terem nada flutuante para abandonar. Carros confusos travestem-se de jangada e chapinham em lagoas improvisadas, como calhaus com bóias de aprendizagem na natação. Sirenes histéricas uivam de minuto a minuto e o lobo avisa pedro que a repetição é que o vai danar. E na minha rua, os putos a cantar:

Chuva Chuva vai-te embora
vai depressa e sem demora,
Vai bater a outra porta
que a vizinha já está morta
Morreu de susto a coitada
depois de morrer afogada,
Chuva Chuva vai-te embora
que quem nada vai na hora.


sábado, 6 de setembro de 2014

Pensamentos Divergentes (nº 342)


Às vezes,
quando a terra vem ao de cima,
perco o chão.

Um travo a cereja no túmulo da boca.

Como as luzes que vêm ao nosso encontro,
que nem faróis à procura de um porto seguro.

Somos só contentores.
Vazios sem o saber.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

You said I was your beat.


O amor evapora como a água. Não damos por ele a desaparecer. Só quando ele deixa de lá estar.

sábado, 30 de agosto de 2014

Terminal


Segurei o Sol numa fotografia. Perdi-te logo a seguir.

Dois cigarros no casaco e uma frase mais usada que estas paredes de encosto que vadiam a cidade.
Ainda sou o mesmo. Mas ultimamente os meus ouvidos têm companhia. Neles mora uma música gloriosa que mal dá para ouvir.

Brindo à tua razão. O homem não muda. Só muda aquilo que escolhe para o seu copo.

domingo, 24 de agosto de 2014

O tempo será todas as feridas


Quis brincar por entre os átomos fixos do ar que nos é permitido. Escondido das parábolas de rédea curta que giravam em torno dos asnos. Eu, o fora-da-lei. O heróico anti-herói de metafórica espada na mão e capa ao coração. Masturbando vértices invisíveis nos cantos de um universo só meu. Passando os meus dias dias a respirar o vácuo e a soprar dragões de papel - monstros finitos de proporções mais finitas ainda. Tudo para te ver o não visto e me rever nesses olhos talhados pelo meu próprio insaber.

Inventor de palavras.

Caloteiro literário. 

Mentiroso no geral.

Tudo o que alguma vez quis foi tudo o que nunca me pertenceu. 
Assim será.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Celeste


Os dias passam como rochedos. Mordiscam os céus, que voam insossos num zapping celestial de quem só sabe o que não quer ver.

A saudade é pior carteiro do mundo.
Vem sempre amanhã.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Amor Polvo


Queria escarrar-te esse amor de volta. Esse amor veneno que decidiste atestar em mim, como quem mecanicamente conta o passar de batidas num mostrador invisível de vida em movimento. Esse amor que se agarrou no fundo, como um pedaço particularmente vingativo de uma pipoca  - e eu não tenho nem os dedos suficientemente compridos nem o reflexo de vómito suficientemente amestrado para o circuncisar de dentro de mim. 

Agarrou-se aos meus ossos. Um polvo de aflição que abriu toca no meu tórax. Às vezes trato-o até como um amor de estimação. Outras, inclusive, vem quando o chamo pelo nome. E fecho a janela para não ouvir o barulho lá fora.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Coisas Que Um Gajo Coiso (nº666)


Estar vivo é o único método comprovado de apreciação da futilidade de se estar vivo.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Gb6


Dez deuses em dez casinhas sonolentas, dormem nas periferias das minhas mãos.

Meus dedos esqueceram. Mesmo sabendo os acordes de cor, há músicas que se deixam de saber tocar sem o cálice da repetição.


Foste música. Foste musa. Saber-te-ei jamais.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Pensamentos Divergentes (nº341)


Agora é noite.

Nos estendais pousam dragões,
duendes de aflições
ainda por tocar.

E na rua, os candeeiros
tão toscos e ligeiros,
deixam estrelas por imaginar.

Lixo, latas e rafeiros,
viajantes e delatores rasteiros,
cantam bêbedos de vinho e luar.

Germinam amores.
Alguns, de todas as cores.
Fazem rodopios,
e definham ao girar.

Agora é noite.

Germinam sonhos
e horrores.
Chegam a casa em fios tristonhos sem rancores
como quem não os pode não esperar.

,.-


Tudo o que escrevo me aborrece.

Há anos que não falo. Esqueci-me de como falar.

Tenho uma língua feita de cinzas, brincando às escondidas algures no túmulo da cabeça.

Aqui jaz um pirata de agrafos no olho que lhe resta para não adormecer.

Aqui canta a senhora gorda, limpando o pó do palco vazio.

 Em alguma parte de mim escondo as palavras que preciso nascer.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Coisas Que Um Gajo Coiso (nº 665)


O mundo fica mais bonito depois de ver um sexagenário a olhar para o rabo de uma sexagenária.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Piromania


Agora é noite.

Entra no teu sarcófago de lençóis. Beija na fronte a tua luta, a guerrilha de arritmias em corações. Encerra os sonhos em cadeados e engole a chave. Deixa o estômago desejar por mais. O que o estômago anseia é sempre mais fácil de digerir.

Deixei em tua casa o papel inflamável das minhas emoções. Não te sei contar quantas. Nem quantas noites elas me têm trepado as costas em suores inversos. Como espelhos do caminho que as minhas sinapses percorrem ao lembrar-se de ti.
Lê, se quiseres, como quem acende um cigarro. 

Sempre tiveste de me pedir pelo isqueiro.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Passo em falso


Agarra-me pelos pulsos. Acorrenta-me a memórias inescapáveis. Torna-me abismo de pernas - asas de traça em fuga da centrifugação do abdómen dobrado.

Brinca. Cospe-me o teu ácido cítrico na boca e mastiga-me o olhar. Um paquidérmico Aleluia em queda livre.

Segura-me nos lábios.

Antes que caia no abismo.

sábado, 14 de junho de 2014

Pensamentos Divergentes (nº 340) - In Sonso


Minha querida,
minha pequena menina
vem ser o sal na minha ferida,
a minha injecção de endorfina.
Torna-te o tempero da minha crueldade,
o granizo que refresca o meu copo de tempestade.

Estala.
Crack
Esfuma-te nas minhas mãos.
Lambe-me a 5 micro milímetros da superfície dos meus lábios.
quero-te o mais longe possível do que pode ser a nossa proximidade.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Zombie T


Sacode o pó.

Roda o tornozelo.

Considera dançar o Thriller.

Pois bem.
Não sei se posso dizer que as notícias sobre a minha morte foram grandemente exageradas. Tenho no céu da boca um purgatório para pensamentos abortados à concepção. 

I need
some
brains.

Vou tentar desenrolar a língua sem que ela caia ao chão.


Coisas Que Um Gajo Coiso (nº 664)


"Será que um cego embriagado não vê a dobrar?"

terça-feira, 20 de maio de 2014

Conta-me, mas não contes comigo


Tenho pensado no estendal da vizinha de cima. Nisso e nesta tragédia que é só sabermos dizer a verdade a mentir. De usar estes fantoches que habitam a nossa boca para teatros de metáforas e pantominas de segredos óbvios.

Só queria falar para o boneco. 
É melhor que falar comigo apenas.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Desabafo de Menino


Saber que me fizeram assim. No meu reino, não há espaço para ser menos que o mundo. Dois dedos de conversa, uma testa inteira de falhanços para digerir durante a vida. Para a merda querer ser mais que merda, precisa primeiro saber que é merda, não é mãe? O problema foi não te ter dado ouvidos em tudo. Fosse eu igual ao fantasma que pariste nessa memória sonhada por todas as mulheres que sofrem por nossa causa. Ingratos desde o primeiro pontapé. Cagamos desilusão desde a primeira fralda e nem o sabemos se não nos for dito o resto da vida. Serei sempre menos homem. Menos gente que aquilo que devia ter nascido de gente.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Carta de inacção


Não te sei dizer quantas vezes te escrevi isto na esperança de não ter de o dizer.

É essa sombra que te empurra pelos ombros e que te faz achar que é boa ideia continuar a viver. Como os batuques dos vizinhos de cima que de assaltam o coração fazendo-te voltar à terra. É essa dormência na alma de quem te engana a continuar a engolir a sanidade a seco.

Faz uma eternidade que começou. E ainda não te ouvi a gritar.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Coisas Que Outros Gajos Coisam Sobre Mim


A propósito do cariz melancólico do meu gosto musical:

"Engraçado que gostas mesmo de desafiar a morte. Mesmo nas músicas que ouves".


quarta-feira, 2 de abril de 2014

segunda-feira, 17 de março de 2014

Pensamentos Divergentes (nº 339)


Este universo
é quase todo
feito de nada.

Ainda assim,
eu rebolo até ti
e tu até mim.

O sentido das coisas,
é elas não fazerem nenhum
E mesmo assim,
a sua repetição ser encontrada.

domingo, 16 de março de 2014

Camisa de noite


Por entre os dedos dos pés, é onde começa.
Mas a chama acende e sobe pelas veias. Vai às cavalitas até morrer pela ganância das alturas.
E eu enterro-a na minha cabeça. Coloco as cinzas numa caixa de sapatos e faço-lhe um pequeno funeral entre as paredes do meu crânio, para que todas as noites me acorde em sonhos a galope - um post-it de adrenalina para me lembrar que podia estar morto.

A vida tem mangas curtas para os meus braços.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Fechado na sala


Sempre que abro as janelas, fecho as portas a um romance.
As duas só sonham em estar juntas. E eu, asmático de amor em solidão, insisto em quebrar o namoro com muros de ar e som.
Devia acorrentá-las uma à outra. Mas nunca acreditei em finais felizes. E podia dar-se a tragédia de os escrever.

terça-feira, 4 de março de 2014

Pensamentos Divergentes (nº 338)


Dou graças a deus, Mulher
por estas cotoveladas de felicidade que me fazes sentir sem aviso.
Fosse deixado aos meus próprios estratagemas sem outro afazer,
e nunca teria descoberto o tédio
como o mais elevado prazer.

segunda-feira, 3 de março de 2014

Books of lies stacked either side


Aconteça o que acontecer, espero manter a minha compostura enquanto faço um espectáculo do meu inevitável esgotamento nervoso.

domingo, 2 de março de 2014

Coisas Que Um Gajo Coiso (nº663)


Cheguei ao fim de um dia de trabalho à minha rua. Dez da noite. Um vizinho deu-me o cêntimo de conversa habitual. Perguntou-me como ia tudo. Em vez de responder com a constatação "Mais um dia", saiu-me "Menos um dia".
Estou a ficar velho.

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