segunda-feira, 1 de junho de 2009

Mortes

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Gostava de compreender este fenómeno humano que é a necessidade de vermos o cadáver daquilo que amamos quando morre. Como se a única forma de deixarmos algo ou alguém ir fosse ter a prova física da sua inegável conclusão.
Quando tal não é possível permanecem para todo o sempre fantasmas não resolvidos, ecoando em nós a irrealidade do acontecimento. E esse alguém torna-se então num espectro fragmentado. Um sonho flutuante que, num déjà vu às arrecuas, ameaça cruelmente surgir à porta a qualquer momento. Como alguém que poderia muito bem ter ido para alguma terra bem distante, com a hipótese de um reencontro enraizada nos becos escuros da nossa mente.

Talvez a morte seja só isso: o eterno adiar de um reencontro mal-pensado.

Dito isto, acho que gostaria de poder ver a morte física de muitas coisas metafísicas que já me abandonaram, só para eu poder ter um sentido de conclusão definitiva.
Quanto à morte que experienciei hoje... restam-me as memórias e saber que nos momentos finais honrei a sua amizade.

5 comentários:

Taina disse...

Nunca senti a necessidade de ver cadáveres seja animal ou humano, muito pelo contrário. Preocupa-me a possibilidade de ser essa a imagem que irei carregar comigo o resto da vida, e prefiro memórias melhores.

De qq modo... vejo tanta mortalidade, morbilidade, vejo tantas lutas perdidas que acho que apenas me protejo de mais uma dor.

Não preciso de ver para sentir....

Raciocínico disse...

Não é uma questão de ser necessário ver para sentir. Simplesmente, da minha experiência pessoal de pessoas que já perdi, aprendi que eu preciso de ter um "encerrar". Como quem fecha um livro.
Sinto que preciso estar lá num momento final. E isso já fez com que me metesse de rompante numa viagem de não sei quantos quilômetros à última da hora, largando todo o trabalho que tinha.

Ela disse...

Obrigado pelos textos que tens escrito "em memória" dela. Obrigado, do fundo do meu coração.

Taina disse...

quando eu digo sentir refiro-me a sentir o encerrar... sentir que de facto acabou.

Mas sendo eu bicho estranho n é de estranhar que tenha essa atitude com os meus animais e pessoas queridas. Enquanto estiverem vivas faço das tripas coração, por muito q me custe, eles estarão sempre primeiro.

Depois de falecerem, não faz diferença para eles mas magoa-me a mim.... enfim... estranhezas q me fazem como sou....

PaT disse...

Eu nunca vi... e encerrei!

Mas cada um tem as suas forças de "encerrar"...

É triste...

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