sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Primeiras páginas de mais um livro que nunca irei terminar


Às 17:23 de uma Quarta-Feira, Joaquim Rodrigues contemplava os seus tormentos existenciais sentado num dos primeiros degraus da escadaria de uma igreja. Ao mesmo tempo, a cerca de 6 metros de distância, um pombo cinzento contemplava qual das suas patas seria a mais indicada para iniciar a sua locomoção bípede – a presença de humanos indicava geralmente a hipótese de encontrar algumas deliciosas migalhas de alimentos não identificados e uma aproximação costuma recompensar apesar dos elevados riscos. Além do mais, não estava a ter muita sorte nas suas tentativas de conquista das fêmeas residentes na sua zona e demonstrações da sua habilidade em recolher alimentos poderia deixá-las mais susceptíveis para o acasalamento. A ligeiramente dramática ironia de este pombo em particular ser infértil poderia ser por alguns considerada de quase cómica, mas infelizmente tal humorismo passaria totalmente ao lado do dito pombo. Não pelo facto de os pombos serem marcadamente estúpidos, mas antes porque os pombos não têm grande sentido de humor e por isso é raro que alguém aproveite a oportunidade de estabelecer um diálogo amigável com um deles. 

Eventualmente o pombo cinzento iniciou a sua tímida marcha, marcada por constantes sinais afirmativos realizados com a cabeça a cada passo dado. “Sim, ok, é isto. Sim, boa, agora é esta pata. Sim, sim é mesmo a outra que devo usar agora. Boa, outra pata para a frente, sim” foram alguns dos pensamentos que lhe ocorreram. À semelhança do pombo, Joaquim Rodrigues, conhecido por Quim, também tinha a necessidade e o hábito de nervosamente arranjar justificações para cada uma das suas acções, reconfortando-se vigorosamente com o facto de ter tomado todas as decisões certas na altura certa apesar de essas mesmas decisões consistentemente provarem ser prejudiciais para si mesmo no final. Sempre tirou boas notas na escola e nunca causou problemas para ninguém – não que tal fosse possível pois a socialização com os seus pares era considerada como um detrimento para o seu sucesso escolar. Entrou para um curso de engenharia com alta empregabilidade numa universidade respeitada, tal como sempre foi o desejo dos seus pais, até que no último ano de formação teve um esgotamento nervoso que o paralisou academicamente. Segundo o que ele descobrira recentemente, para sua grande surpresa, não é suposto ataques de pânico fazerem parte do dia-a-dia de uma pessoa e aparentemente não eram todos os outros que se mostravam absurda e inexplicavelmente indiferentes e relaxados com todos os problemas e frustrações intelectuais que se acumulavam durante as semanas mas sim ele que levava as coisas com demasiada ansiedade. 

E é mais ou menos aqui que terminam as semelhanças entre Joaquim e o pombo cinzento, pois as preocupações do pombo são substancialmente mais significativas que as de Joaquim. Enquanto que as preocupações do pombo andam à volta da propagação do seu código genético e da validade deste para a melhoria da sua espécie, Joaquim preocupa-se apenas com o que irá fazer agora com a sua vida. A continuação no ensino superior está de momento fora de questão pois parece apenas agravar a sua condição e os dias mostram-se vagos e aborrecidos. Não só existe a medicamente recomendada evasão de qualquer acontecimento que possa deixá-lo ansioso como simplesmente não pode usufruir do entretenimento resultante da companhia de outros membros da sua espécie pois não tem amigos nem conhece pessoas que desejem partilhar da sua companhia. Não que isso lhe servisse de muito. O contacto com os outros deixa-o sempre algo ansioso e não conseguia ultrapassar esse nervosismo. Era como se os outros lhe fossem completos alienígenas.

5 comentários:

Anónimo disse...

Gostei bastante do texto (especialmente do início, a parte do pombo, tá uma cena interessante). Acho é que tens aí algumas frases demasiado longas, mais para o fim do texto. Talvez seja propositado, de qq maneira acho que podias rever... E era fixe que continuasses.

T disse...

Provavelmente tens razão. Como estava mais concentrado numa personagem mais intelectual, compliquei ainda mais a linguagem. Foi subconsciente.

Obrigado.

Pedro Simão disse...

Olá, T. (Já não comento isto há uns tempos, mas venho cá espreitar quase todos os dias!)

Não concordo com o Anónimo. Achei tudo muito bom (excepto o nome do personagem). Não sei, soou-me bem. Mas soube a pouco. Vê se continuas!

Ah. E o pombo! I see what you did there...
(Daqui a uns meses acho que vou cobrar a "dívida" que me sugeriste por email, se ainda te lembrares dela).

girl in motion disse...

Acho que se continuasses a escrever e por acaso acabasses o livro, eu gostava de o ler, a julgar por este início! Agora estou curiosa sobre o que vai acontecer ao Quim. Isto se a história do livro for realmente sobre o Quim, e não sobre o pombo! Já sabia que escrevias bem, são as personagens que crias agora que me intrigam.

T disse...

Pedro: Obrigado pelo apoio. O nome do Quim é um bocado fatela de propósito e inspirado noutras pessoas. Quanto à dívida estás à vontade.

girl in motion: Obrigado. O pombo não é a personagem principal mas é possível que ainda venha a ser relevante.

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