domingo, 12 de setembro de 2010

"O Sexo Mata"

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Era o que cantava a Joni Mitchell, antes de se vender ao Starbucks, há mais de 15 anos atrás fazendo aquilo que, à primeira vista, é apenas uma referência óbvia à SIDA.
Hoje em dia continuamos com medo do sexo. No Público de hoje fala-se da alteração da educação sexual para esta ser obrigatória em todos os ciclos de ensino. As reacções são as esperadas, com referência ao estado transmitir a mensagem de "Forniquem à vontade mas com preservativo" ou então a indignação pelo facto de "serem muito novos" mas principalmente a famosa afirmação de que a sexualidade não é trabalho da escola, os pais é que sabem o que querem ensinar aos filhos (e quando o querem ensinar) sobre o corpo deles. Há também claro aqueles que se limitam a protestar contra o "governo socio-fascista, neo-liberal e pseudo-progressista que apoia a promiscuidade e a indecência" mas vou fazer de conta que esses não existem, para o bem da minha tensão arterial.
Como sociedade temos medo do sexo. Fomos ensinados, e muito bem ensinados, de que não é natural. A educação sexual sempre existiu, mas a lição resumia-se a um redondo "Não". Os desejos sexuais são castigados pela censura dos pares e dos adultos - eles próprios sexualmente frustrados pelo mesmo modelo num ciclo de disfuncionalidade. É bem possível que se perguntarem aos vossos amigos, pais e colegas o que é "sexualidade saudável" a maioria estremeça perante a heresia das palavras, para depois hesitar numa contemplação de incertezas. É que uma sexualidade saudável não se mede pelos contraceptivos, pela idade, pela estabilidade ou emocionalidade da relação ou pelo grau (positivo ou negativo) de auto-controlo que as pessoas exercem nelas próprias. É a capacidade de estarmos realmente com um outro por antes disso conseguirmos estar connosco próprios. É trocarmos a vergonha pelo respeito e pela honestidade do desejo.
"Promiscuidade" e "Indecência" são palavras para representar algo que não existe. Nunca existiu. Fomos nós que as trouxemos para uma realidade virtual assim que as proferimos pela primeira vez. O sexo faz parte de nós de uma forma quase indistinta, sem ele não existíamos. Pensar que é algo que devemos a todo o custo separar de nós como indivíduos é na melhor das hipóteses tolice e na pior loucura, tal como achar que não é necessário os sistemas de educação intervirem neste aspecto com factos e esclarecimento de dúvidas.
Precisamos de nos parar de iludir e perceber que os jovens vão sempre ter sexo e que se queremos que eles se tornem adultos estáveis e saudáveis têm de ser educados e preparados de forma mental, emocional e técnica para isso - sem os tabus que gostamos tanto de forçar. É que até lá, só com preservativos e máximas morais, o sexo não mata mas mói.

6 comentários:

Lady Me disse...

Concordo plenamente. Já chega de tantos tabus. É a coisa mais natural do mundo. É que não há mesmo nada mais natural que o sexo. E as pessoas insistem em fazer disto algo que é proibido falar, comentar, ver, fazer.

Sara disse...

não poderia estar mais de acordo.
'É trocarmos a vergonha pelo respeito e pela honestidade do desejo.' foi a frase que mais me tocou.

Bolacha disse...

Ao ler isto lembrei-me da minha professora de Ciências Naturais do 6º ano e do meu professor de Biologia do 12º ano. A primeira tentou fazer uma lavagem cerebral ás meninas da turma com discursos inspiradores acerca das virtudes da virgindade conservada até ao casamento (usando até argumentos religiosos, que foi o mais engraçado), o segundo saltou deliberadamente a parte da matéria referente à resposta sexual (nem foi objecto de avaliação).
Existe mesmo esse medo por parte de professores e educadores de que a informação leve ao «comportamento coelhinho», mas enquanto presistir o receio não há chuva de latéx em centros de saúde ou em campanhas escolares que mude o estado das coisas.

T disse...

Bolacha: Geralmente quem tem medo de fazer os adolescentes pensar mais em sexo é porque não se lembra da sua própria adolescência e consequentemente que é tarefa difícil fazê-los pensar mais nisso do que já pensam.

wapy disse...

Finalmente, alguém escreveu o que eu queria ler.

Tenho de me dar por feliz por os meus pais me terem ensinado bem nesse sentido. Mas nem todos têm a mesma sorte, continuamos como estávamos há 30 anos.

Quanto ao comentário da Bolachinha, como eu me lembro das minhas aulas do sexto ano! Oh pois, uma vez a minha professora disse que fazer sexo era uma coisa completamente normal e "muito boa" e lembro-me da reacção de colegas (que eram da minha idade, mas já deviam estar cheios do mesmo lixo que os pais) "Ai eu não acredito que ela disse isto na aula!". Nos tempos do 12º acho que a nossa experiência não diferiu - mas também me lembro que só tinha Biologia quem queria.

lenz buchmann disse...

pode ser que as coisas mudem. mas, honestamente, não vejo jeitos...

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