segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Não sei o lugar das coisas

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"Cada coisa no seu lugar". Às vezes existo demais para a minha cabeça, abafa-me o cérebro.
Pego nas chaves do carro. Saio, não sei bem para onde. O carro guia-me para um dos poucos sítios completamente desertos que conheço na cidade.

Estaciono ao calha. Quem se vai ralar?

Saio do carro e deixo a porta aberta e o rádio ligado. Dele cospem músicas batidas em trilhos low-fi que não me animam. Mas a música não é importante, não chega a barulho de fundo.
Acendo um cigarro. Pensando bem, desligo o rádio. Quero ouvir a respiração asmática da cidade.

O Sol começa a pôr-se. A vista não é má. Vejo a Sé, ao fundo. Os carros decoram o falso horizonte.
Acendo outro cigarro.

"Cada coisa no seu lugar". Eu bem queria mas não sei o lugar das coisas. Sempre andei com a cabeça nas nuvens. Quando era pequeno os professores queixavam-se. Os mais impacientes chamavam-me preguiçoso. Os outros diziam que não prestava atenção, que me distraia facilmente nos meus pensamentos.

De que me servia a escola, afinal? Não era nada daquilo que eu queria saber. Questionava o propósito e a utilidade de tudo que me tentavam ensinar.
E podia até dizer que sendo assim preferia fechar-me no meu mundo de fantasia, mas não era nada disso. Não era uma opção minha, era algo que simplesmente fazia. Lutar contra isso era lutar contra algo tão meu e natural como o sono, quando a cabeça pende teimosamente apesar dos sobressaltos que tentamos dar, numa guerra constante impossível de vencer.

Permanece comigo até hoje. Se calhar penso demais. Se calhar nunca soube controlar a minha imaginação.
As vezes sinto-me a caminhar num sono em que não sei qual é a parte real.

"Cada coisa no seu lugar" e eu não sei onde ando.

1 comentários:

Pipi disse...

Como é que uma escrita assim é tão pouco comentada?

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