quinta-feira, 26 de março de 2015
Trinca
Só quando saíste da minha boca é que ouvi o disparo.
Um reflexo no escuro.
Uma silhueta da alma de não-sei-quê a pairar entre os dentes. O cano do revólver a fumegar.
Tudo são palavras. Mas nos seus espaços o abismo. E pudéssemos nós entrar nele. Cortar a linha salva-vidas num gerónimo mudo e tropeçar no nada. Entrar nele para talvez não voltar.
Talvez aí fosse uma questão de tempo até que o tempo não importasse.
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segunda-feira, 26 de janeiro de 2015
Com amor, M.
Fui a única a segurar a tua mão enquanto morrias.
Os teus olhos de medo flutuando à tona dos teus verdadeiros azuis, como se mais nada alguma vez tivesse existido. Rodopiando em lentos carroceis avariados, num movimento sincronizado com o teu primeiro - e último - sorriso ao contrário.
É sempre essa a parte que me deixa mais triste. E é também a minha preferida. O amor é mau quando acaba. Mas acaba sempre.
Eu sempre precisei de companhia. Mesmo que breve, mesmo que não desejada. Ser amada de volta é raro, mas é bom ter alguém para desejar.
Em troca, podes esquecer todas as tuas lutas e dívidas. Que a última dívida que cumpres, é aquela que te dão ao nascer.
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segunda-feira, 19 de janeiro de 2015
Resoluções de Ano Velho
Não sei, nem nunca saberei, como é com as mulheres. Mas tornas-te num homem quando tens medo dos homens que vieram antes de ti. Principalmente quando esses homens foste tu mesmo.
Há algo de perverso nas resoluções de ano novo. São promessa que, do hábito de não se cumprirem, se fazem e se quebram sem que pese a consciência. Porque o resultado é o mesmo, apresento-te as minhas 10 resoluções de ano velho, na esperança que faça a diferença a pelo menos um de nós.
- Prometo não ter engordado quilos que nem me dei ao trabalho de contar.
- Prometo que só fumei quando tinha mesmo de fumar e que isso é muito relativo.
- Prometo que não deixei de escrever. Porque foi por essa pessoa que te apaixonaste. E porque essa pessoa é das poucas em mim pela qual tenho algum respeito.
- Prometo que não te abandonei. Nem me esqueci de ti por um instante que seja.
- Prometo que não deixei de te apoiar naquele sábado de chuva em que precisaste.
- Prometo que não segui as pisadas do meu pai e que não bebi uma única vez para escapar de quem sou.
- Prometo que não deixei a minha alma solidificar.
- Prometo que não deixei de me esforçar por ser quem queria ser.
- Prometo que não fiz nenhuma promessa oca.
- Prometo não ter partido o teu coração e o meu 10 vezes que pareceram seguidas.
Um brinde ao ano velho.
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sábado, 13 de dezembro de 2014
O espelho
Contam-se pelos dedos o número de ossos que parti a esmurrar paredes. E tua cara lá pintada a vermelho, beijando em mudo as tuas eternas palavras. Um ódio que cresce, mas não aparece - a velha história do costume, com duas pernas que lhe falham e uma memória que já não é o que era. Para que fique acordado à espera de esquecer esta indigestão de sonhos. Este ouriço-cacheiro de lutas à flor da pele.
Deixa-me como a meia solitária no canto do quarto. Como o depósito de vinho barato no fundo do copo. Lançando desejos às costas de camelos para atravessar o Deserto que Sara deixou.
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terça-feira, 9 de dezembro de 2014
Pensamentos Divergentes (nº343)
um ódio à medida na boca
o aperitivo ideal para o prato principal
drogas, mulheres e um punhado de nada
tudo o que me possa manter no centro da estrada
ó, vê como os pássaros fazem pouco
de ti, de mim e de um azul sem fim
enquanto o turismo do amor engorda a cada dia
um revólver com apenas uma bala como seu guia
mas os dias acabam em pandeireta
só se ouve o fim quando ninguém toca
A(u)ditivo
Semáforo. Luz. Passadeira.
Ninguém dava por nada enquanto enviavas o teu amor em tanques de guerra fazendo marcha-atrás por toda a cidade. Tentando fazer piruetas só com os cotovelos e meio bolso de fé. Como as centopeias de palavras que te habitavam o cérebro. Como as senhas varridas do chão do supermercado.
Como a primeira vez que sentiste que um beijo não tinha sido uma arma.
Todo o vazio à tua volta para te dizer aquilo que já sabias. Todos têm uma canção entre as orelhas que mais ninguém consegue ouvir. E o problema não é morrer sozinho. É não ter quem a oiça a tempo.
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segunda-feira, 8 de dezembro de 2014
domingo, 16 de novembro de 2014
Não procurar
Não me leves a mal. Aliás, não me leves de todo se possível. Estou bem onde estou e tudo aquilo que digo deve ser tomado em intravenoso: gota a gota e nada se a saúde o permitir.
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sábado, 25 de outubro de 2014
Aeroporto
Só quando saíste é que dançou o pó que me alcatifava o pensamento.
Dois pássaros ou dois leões. Um animal contra o outro ou é amor ou morte. Nunca a indiferença do universo. Aquilo que chamamos de paz.
Descansa o atordoar dos lábios.
Enquanto o mar pestanejar
haverão sempre salpicos a beijar as tuas pernas.
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sexta-feira, 26 de setembro de 2014
Deslize
Sempre seguindo os teus movimentos. Piso as tuas pegadas para que o chão por baixo de mim não rompa, afogando-me em doçura.
Há quem diga mal do gelo. Da sua frieza. Mas há dias em que ele é a única coisa que nos mantém vivos.
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segunda-feira, 22 de setembro de 2014
Menina Chorona
Lisboa vê-se encharcada em lágrimas. Sem saber se de rir ou de chorar, decide que o melhor é rir para não desabar.
Enquanto isso, os ratos entram em desambandono por não terem nada flutuante para abandonar. Carros confusos travestem-se de jangada e chapinham em lagoas improvisadas, como calhaus com bóias de aprendizagem na natação. Sirenes histéricas uivam de minuto a minuto e o lobo avisa pedro que a repetição é que o vai danar. E na minha rua, os putos a cantar:
Chuva Chuva vai-te embora
vai depressa e sem demora,
Vai bater a outra porta
que a vizinha já está morta
Morreu de susto a coitada
depois de morrer afogada,
Chuva Chuva vai-te embora
que quem nada vai na hora.
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sábado, 6 de setembro de 2014
Pensamentos Divergentes (nº 342)
Às vezes,
quando a terra vem ao de cima,
perco o chão.
Um travo a cereja no túmulo da boca.
Como as luzes que vêm ao nosso encontro,
que nem faróis à procura de um porto seguro.
Somos só contentores.
Vazios sem o saber.
terça-feira, 2 de setembro de 2014
You said I was your beat.
O amor evapora como a água. Não damos por ele a desaparecer. Só quando ele deixa de lá estar.
sábado, 30 de agosto de 2014
Terminal
Segurei o Sol numa fotografia. Perdi-te logo a seguir.
Dois cigarros no casaco e uma frase mais usada que estas paredes de encosto que vadiam a cidade.
Ainda sou o mesmo. Mas ultimamente os meus ouvidos têm companhia. Neles mora uma música gloriosa que mal dá para ouvir.
Brindo à tua razão. O homem não muda. Só muda aquilo que escolhe para o seu copo.
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domingo, 24 de agosto de 2014
O tempo será todas as feridas
Quis brincar por entre os átomos fixos do ar que nos é permitido. Escondido das parábolas de rédea curta que giravam em torno dos asnos. Eu, o fora-da-lei. O heróico anti-herói de metafórica espada na mão e capa ao coração. Masturbando vértices invisíveis nos cantos de um universo só meu. Passando os meus dias dias a respirar o vácuo e a soprar dragões de papel - monstros finitos de proporções mais finitas ainda. Tudo para te ver o não visto e me rever nesses olhos talhados pelo meu próprio insaber.
Inventor de palavras.
Caloteiro literário.
Mentiroso no geral.
Tudo o que alguma vez quis foi tudo o que nunca me pertenceu.
Assim será.
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segunda-feira, 18 de agosto de 2014
Celeste
Os dias passam como rochedos. Mordiscam os céus, que voam insossos num zapping celestial de quem só sabe o que não quer ver.
A saudade é pior carteiro do mundo.
Vem sempre amanhã.
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segunda-feira, 11 de agosto de 2014
Amor Polvo
Queria escarrar-te esse amor de volta. Esse amor veneno que decidiste atestar em mim, como quem mecanicamente conta o passar de batidas num mostrador invisível de vida em movimento. Esse amor que se agarrou no fundo, como um pedaço particularmente vingativo de uma pipoca - e eu não tenho nem os dedos suficientemente compridos nem o reflexo de vómito suficientemente amestrado para o circuncisar de dentro de mim.
Agarrou-se aos meus ossos. Um polvo de aflição que abriu toca no meu tórax. Às vezes trato-o até como um amor de estimação. Outras, inclusive, vem quando o chamo pelo nome. E fecho a janela para não ouvir o barulho lá fora.
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quinta-feira, 7 de agosto de 2014
Coisas Que Um Gajo Coiso (nº666)
Estar vivo é o único método comprovado de apreciação da futilidade de se estar vivo.
segunda-feira, 28 de julho de 2014
Gb6
Dez deuses em dez casinhas sonolentas, dormem nas periferias das minhas mãos.
Meus dedos esqueceram. Mesmo sabendo os acordes de cor, há músicas que se deixam de saber tocar sem o cálice da repetição.
Foste música. Foste musa. Saber-te-ei jamais.
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quinta-feira, 17 de julho de 2014
Pensamentos Divergentes (nº341)
Agora é noite.
Nos estendais pousam dragões,
duendes de aflições
ainda por tocar.
E na rua, os candeeiros
tão toscos e ligeiros,
deixam estrelas por imaginar.
Lixo, latas e rafeiros,
viajantes e delatores rasteiros,
cantam bêbedos de vinho e luar.
Germinam amores.
Alguns, de todas as cores.
Fazem rodopios,
e definham ao girar.
Agora é noite.
Germinam sonhos
e horrores.
Chegam a casa em fios tristonhos sem rancores
como quem não os pode não esperar.
Nos estendais pousam dragões,
duendes de aflições
ainda por tocar.
E na rua, os candeeiros
tão toscos e ligeiros,
deixam estrelas por imaginar.
Lixo, latas e rafeiros,
viajantes e delatores rasteiros,
cantam bêbedos de vinho e luar.
Germinam amores.
Alguns, de todas as cores.
Fazem rodopios,
e definham ao girar.
Agora é noite.
Germinam sonhos
e horrores.
Chegam a casa em fios tristonhos sem rancores
como quem não os pode não esperar.
,.-
Tudo o que escrevo me aborrece.
Há anos que não falo. Esqueci-me de como falar.
Tenho uma língua feita de cinzas, brincando às escondidas algures no túmulo da cabeça.
Aqui jaz um pirata de agrafos no olho que lhe resta para não adormecer.
Aqui canta a senhora gorda, limpando o pó do palco vazio.
Em alguma parte de mim escondo as palavras que preciso nascer.
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quinta-feira, 26 de junho de 2014
Coisas Que Um Gajo Coiso (nº 665)
O mundo fica mais bonito depois de ver um sexagenário a olhar para o rabo de uma sexagenária.
quarta-feira, 25 de junho de 2014
I know it hurts
Promessas, promessas.
quinta-feira, 19 de junho de 2014
Piromania
Agora é noite.
Entra no teu sarcófago de lençóis. Beija na fronte a tua luta, a guerrilha de arritmias em corações. Encerra os sonhos em cadeados e engole a chave. Deixa o estômago desejar por mais. O que o estômago anseia é sempre mais fácil de digerir.
Deixei em tua casa o papel inflamável das minhas emoções. Não te sei contar quantas. Nem quantas noites elas me têm trepado as costas em suores inversos. Como espelhos do caminho que as minhas sinapses percorrem ao lembrar-se de ti.
Lê, se quiseres, como quem acende um cigarro.
Sempre tiveste de me pedir pelo isqueiro.
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segunda-feira, 16 de junho de 2014
Passo em falso
Agarra-me pelos pulsos. Acorrenta-me a memórias inescapáveis. Torna-me abismo de pernas - asas de traça em fuga da centrifugação do abdómen dobrado.
Brinca. Cospe-me o teu ácido cítrico na boca e mastiga-me o olhar. Um paquidérmico Aleluia em queda livre.
Segura-me nos lábios.
Antes que caia no abismo.
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sábado, 14 de junho de 2014
Pensamentos Divergentes (nº 340) - In Sonso
Minha querida,
minha pequena menina
vem ser o sal na minha ferida,
a minha injecção de endorfina.
Torna-te o tempero da minha crueldade,
o granizo que refresca o meu copo de tempestade.
Estala.
Crack
Esfuma-te nas minhas mãos.
Lambe-me a 5 micro milímetros da superfície dos meus lábios.
quero-te o mais longe possível do que pode ser a nossa proximidade.
quinta-feira, 12 de junho de 2014
Zombie T
Sacode o pó.
Roda o tornozelo.
Considera dançar o Thriller.
Pois bem.
Não sei se posso dizer que as notícias sobre a minha morte foram grandemente exageradas. Tenho no céu da boca um purgatório para pensamentos abortados à concepção.
I need
some
brains.
Vou tentar desenrolar a língua sem que ela caia ao chão.
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terça-feira, 20 de maio de 2014
Conta-me, mas não contes comigo
Tenho pensado no estendal da vizinha de cima. Nisso e nesta tragédia que é só sabermos dizer a verdade a mentir. De usar estes fantoches que habitam a nossa boca para teatros de metáforas e pantominas de segredos óbvios.
Só queria falar para o boneco.
É melhor que falar comigo apenas.
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segunda-feira, 28 de abril de 2014
Desabafo de Menino
Saber que me fizeram assim. No meu reino, não há espaço para ser menos que o mundo. Dois dedos de conversa, uma testa inteira de falhanços para digerir durante a vida. Para a merda querer ser mais que merda, precisa primeiro saber que é merda, não é mãe? O problema foi não te ter dado ouvidos em tudo. Fosse eu igual ao fantasma que pariste nessa memória sonhada por todas as mulheres que sofrem por nossa causa. Ingratos desde o primeiro pontapé. Cagamos desilusão desde a primeira fralda e nem o sabemos se não nos for dito o resto da vida. Serei sempre menos homem. Menos gente que aquilo que devia ter nascido de gente.
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