sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Deslize


Sempre seguindo os teus movimentos. Piso as tuas pegadas para que o chão por baixo de mim não rompa, afogando-me em doçura. 

Há quem diga mal do gelo. Da sua frieza. Mas há dias em que ele é a única coisa que nos mantém vivos. 

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Menina Chorona


Lisboa vê-se encharcada em lágrimas. Sem saber se de rir ou de chorar, decide que o melhor é rir para não desabar. 

Enquanto isso, os ratos entram em desambandono por não terem nada flutuante para abandonar. Carros confusos travestem-se de jangada e chapinham em lagoas improvisadas, como calhaus com bóias de aprendizagem na natação. Sirenes histéricas uivam de minuto a minuto e o lobo avisa pedro que a repetição é que o vai danar. E na minha rua, os putos a cantar:

Chuva Chuva vai-te embora
vai depressa e sem demora,
Vai bater a outra porta
que a vizinha já está morta
Morreu de susto a coitada
depois de morrer afogada,
Chuva Chuva vai-te embora
que quem nada vai na hora.


sábado, 6 de setembro de 2014

Pensamentos Divergentes (nº 342)


Às vezes,
quando a terra vem ao de cima,
perco o chão.

Um travo a cereja no túmulo da boca.

Como as luzes que vêm ao nosso encontro,
que nem faróis à procura de um porto seguro.

Somos só contentores.
Vazios sem o saber.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

You said I was your beat.


O amor evapora como a água. Não damos por ele a desaparecer. Só quando ele deixa de lá estar.

sábado, 30 de agosto de 2014

Terminal


Segurei o Sol numa fotografia. Perdi-te logo a seguir.

Dois cigarros no casaco e uma frase mais usada que estas paredes de encosto que vadiam a cidade.
Ainda sou o mesmo. Mas ultimamente os meus ouvidos têm companhia. Neles mora uma música gloriosa que mal dá para ouvir.

Brindo à tua razão. O homem não muda. Só muda aquilo que escolhe para o seu copo.

domingo, 24 de agosto de 2014

O tempo será todas as feridas


Quis brincar por entre os átomos fixos do ar que nos é permitido. Escondido das parábolas de rédea curta que giravam em torno dos asnos. Eu, o fora-da-lei. O heróico anti-herói de metafórica espada na mão e capa ao coração. Masturbando vértices invisíveis nos cantos de um universo só meu. Passando os meus dias dias a respirar o vácuo e a soprar dragões de papel - monstros finitos de proporções mais finitas ainda. Tudo para te ver o não visto e me rever nesses olhos talhados pelo meu próprio insaber.

Inventor de palavras.

Caloteiro literário. 

Mentiroso no geral.

Tudo o que alguma vez quis foi tudo o que nunca me pertenceu. 
Assim será.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Celeste


Os dias passam como rochedos. Mordiscam os céus, que voam insossos num zapping celestial de quem só sabe o que não quer ver.

A saudade é pior carteiro do mundo.
Vem sempre amanhã.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Amor Polvo


Queria escarrar-te esse amor de volta. Esse amor veneno que decidiste atestar em mim, como quem mecanicamente conta o passar de batidas num mostrador invisível de vida em movimento. Esse amor que se agarrou no fundo, como um pedaço particularmente vingativo de uma pipoca  - e eu não tenho nem os dedos suficientemente compridos nem o reflexo de vómito suficientemente amestrado para o circuncisar de dentro de mim. 

Agarrou-se aos meus ossos. Um polvo de aflição que abriu toca no meu tórax. Às vezes trato-o até como um amor de estimação. Outras, inclusive, vem quando o chamo pelo nome. E fecho a janela para não ouvir o barulho lá fora.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Coisas Que Um Gajo Coiso (nº666)


Estar vivo é o único método comprovado de apreciação da futilidade de se estar vivo.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Gb6


Dez deuses em dez casinhas sonolentas, dormem nas periferias das minhas mãos.

Meus dedos esqueceram. Mesmo sabendo os acordes de cor, há músicas que se deixam de saber tocar sem o cálice da repetição.


Foste música. Foste musa. Saber-te-ei jamais.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Pensamentos Divergentes (nº341)


Agora é noite.

Nos estendais pousam dragões,
duendes de aflições
ainda por tocar.

E na rua, os candeeiros
tão toscos e ligeiros,
deixam estrelas por imaginar.

Lixo, latas e rafeiros,
viajantes e delatores rasteiros,
cantam bêbedos de vinho e luar.

Germinam amores.
Alguns, de todas as cores.
Fazem rodopios,
e definham ao girar.

Agora é noite.

Germinam sonhos
e horrores.
Chegam a casa em fios tristonhos sem rancores
como quem não os pode não esperar.

,.-


Tudo o que escrevo me aborrece.

Há anos que não falo. Esqueci-me de como falar.

Tenho uma língua feita de cinzas, brincando às escondidas algures no túmulo da cabeça.

Aqui jaz um pirata de agrafos no olho que lhe resta para não adormecer.

Aqui canta a senhora gorda, limpando o pó do palco vazio.

 Em alguma parte de mim escondo as palavras que preciso nascer.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Coisas Que Um Gajo Coiso (nº 665)


O mundo fica mais bonito depois de ver um sexagenário a olhar para o rabo de uma sexagenária.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Piromania


Agora é noite.

Entra no teu sarcófago de lençóis. Beija na fronte a tua luta, a guerrilha de arritmias em corações. Encerra os sonhos em cadeados e engole a chave. Deixa o estômago desejar por mais. O que o estômago anseia é sempre mais fácil de digerir.

Deixei em tua casa o papel inflamável das minhas emoções. Não te sei contar quantas. Nem quantas noites elas me têm trepado as costas em suores inversos. Como espelhos do caminho que as minhas sinapses percorrem ao lembrar-se de ti.
Lê, se quiseres, como quem acende um cigarro. 

Sempre tiveste de me pedir pelo isqueiro.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Passo em falso


Agarra-me pelos pulsos. Acorrenta-me a memórias inescapáveis. Torna-me abismo de pernas - asas de traça em fuga da centrifugação do abdómen dobrado.

Brinca. Cospe-me o teu ácido cítrico na boca e mastiga-me o olhar. Um paquidérmico Aleluia em queda livre.

Segura-me nos lábios.

Antes que caia no abismo.

sábado, 14 de junho de 2014

Pensamentos Divergentes (nº 340) - In Sonso


Minha querida,
minha pequena menina
vem ser o sal na minha ferida,
a minha injecção de endorfina.
Torna-te o tempero da minha crueldade,
o granizo que refresca o meu copo de tempestade.

Estala.
Crack
Esfuma-te nas minhas mãos.
Lambe-me a 5 micro milímetros da superfície dos meus lábios.
quero-te o mais longe possível do que pode ser a nossa proximidade.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Zombie T


Sacode o pó.

Roda o tornozelo.

Considera dançar o Thriller.

Pois bem.
Não sei se posso dizer que as notícias sobre a minha morte foram grandemente exageradas. Tenho no céu da boca um purgatório para pensamentos abortados à concepção. 

I need
some
brains.

Vou tentar desenrolar a língua sem que ela caia ao chão.


Coisas Que Um Gajo Coiso (nº 664)


"Será que um cego embriagado não vê a dobrar?"

terça-feira, 20 de maio de 2014

Conta-me, mas não contes comigo


Tenho pensado no estendal da vizinha de cima. Nisso e nesta tragédia que é só sabermos dizer a verdade a mentir. De usar estes fantoches que habitam a nossa boca para teatros de metáforas e pantominas de segredos óbvios.

Só queria falar para o boneco. 
É melhor que falar comigo apenas.

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