quinta-feira, 17 de julho de 2014

Pensamentos Divergentes (nº341)


Agora é noite.

Nos estendais pousam dragões,
duendes de aflições
ainda por tocar.

E na rua, os candeeiros
tão toscos e ligeiros,
deixam estrelas por imaginar.

Lixo, latas e rafeiros,
viajantes e delatores rasteiros,
cantam bêbedos de vinho e luar.

Germinam amores.
Alguns, de todas as cores.
Fazem rodopios,
e definham ao girar.

Agora é noite.

Germinam sonhos
e horrores.
Chegam a casa em fios tristonhos sem rancores
como quem não os pode não esperar.

,.-


Tudo o que escrevo me aborrece.

Há anos que não falo. Esqueci-me de como falar.

Tenho uma língua feita de cinzas, brincando às escondidas algures no túmulo da cabeça.

Aqui jaz um pirata de agrafos no olho que lhe resta para não adormecer.

Aqui canta a senhora gorda, limpando o pó do palco vazio.

 Em alguma parte de mim escondo as palavras que preciso nascer.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Coisas Que Um Gajo Coiso (nº 665)


O mundo fica mais bonito depois de ver um sexagenário a olhar para o rabo de uma sexagenária.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Piromania


Agora é noite.

Entra no teu sarcófago de lençóis. Beija na fronte a tua luta, a guerrilha de arritmias em corações. Encerra os sonhos em cadeados e engole a chave. Deixa o estômago desejar por mais. O que o estômago anseia é sempre mais fácil de digerir.

Deixei em tua casa o papel inflamável das minhas emoções. Não te sei contar quantas. Nem quantas noites elas me têm trepado as costas em suores inversos. Como espelhos do caminho que as minhas sinapses percorrem ao lembrar-se de ti.
Lê, se quiseres, como quem acende um cigarro. 

Sempre tiveste de me pedir pelo isqueiro.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Passo em falso


Agarra-me pelos pulsos. Acorrenta-me a memórias inescapáveis. Torna-me abismo de pernas - asas de traça em fuga da centrifugação do abdómen dobrado.

Brinca. Cospe-me o teu ácido cítrico na boca e mastiga-me o olhar. Um paquidérmico Aleluia em queda livre.

Segura-me nos lábios.

Antes que caia no abismo.

sábado, 14 de junho de 2014

Pensamentos Divergentes (nº 340) - In Sonso


Minha querida,
minha pequena menina
vem ser o sal na minha ferida,
a minha injecção de endorfina.
Torna-te o tempero da minha crueldade,
o granizo que refresca o meu copo de tempestade.

Estala.
Crack
Esfuma-te nas minhas mãos.
Lambe-me a 5 micro milímetros da superfície dos meus lábios.
quero-te o mais longe possível do que pode ser a nossa proximidade.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Zombie T


Sacode o pó.

Roda o tornozelo.

Considera dançar o Thriller.

Pois bem.
Não sei se posso dizer que as notícias sobre a minha morte foram grandemente exageradas. Tenho no céu da boca um purgatório para pensamentos abortados à concepção. 

I need
some
brains.

Vou tentar desenrolar a língua sem que ela caia ao chão.


Coisas Que Um Gajo Coiso (nº 664)


"Será que um cego embriagado não vê a dobrar?"

terça-feira, 20 de maio de 2014

Conta-me, mas não contes comigo


Tenho pensado no estendal da vizinha de cima. Nisso e nesta tragédia que é só sabermos dizer a verdade a mentir. De usar estes fantoches que habitam a nossa boca para teatros de metáforas e pantominas de segredos óbvios.

Só queria falar para o boneco. 
É melhor que falar comigo apenas.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Desabafo de Menino


Saber que me fizeram assim. No meu reino, não há espaço para ser menos que o mundo. Dois dedos de conversa, uma testa inteira de falhanços para digerir durante a vida. Para a merda querer ser mais que merda, precisa primeiro saber que é merda, não é mãe? O problema foi não te ter dado ouvidos em tudo. Fosse eu igual ao fantasma que pariste nessa memória sonhada por todas as mulheres que sofrem por nossa causa. Ingratos desde o primeiro pontapé. Cagamos desilusão desde a primeira fralda e nem o sabemos se não nos for dito o resto da vida. Serei sempre menos homem. Menos gente que aquilo que devia ter nascido de gente.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Carta de inacção


Não te sei dizer quantas vezes te escrevi isto na esperança de não ter de o dizer.

É essa sombra que te empurra pelos ombros e que te faz achar que é boa ideia continuar a viver. Como os batuques dos vizinhos de cima que de assaltam o coração fazendo-te voltar à terra. É essa dormência na alma de quem te engana a continuar a engolir a sanidade a seco.

Faz uma eternidade que começou. E ainda não te ouvi a gritar.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Coisas Que Outros Gajos Coisam Sobre Mim


A propósito do cariz melancólico do meu gosto musical:

"Engraçado que gostas mesmo de desafiar a morte. Mesmo nas músicas que ouves".


quarta-feira, 2 de abril de 2014

segunda-feira, 17 de março de 2014

Pensamentos Divergentes (nº 339)


Este universo
é quase todo
feito de nada.

Ainda assim,
eu rebolo até ti
e tu até mim.

O sentido das coisas,
é elas não fazerem nenhum
E mesmo assim,
a sua repetição ser encontrada.

domingo, 16 de março de 2014

Camisa de noite


Por entre os dedos dos pés, é onde começa.
Mas a chama acende e sobe pelas veias. Vai às cavalitas até morrer pela ganância das alturas.
E eu enterro-a na minha cabeça. Coloco as cinzas numa caixa de sapatos e faço-lhe um pequeno funeral entre as paredes do meu crânio, para que todas as noites me acorde em sonhos a galope - um post-it de adrenalina para me lembrar que podia estar morto.

A vida tem mangas curtas para os meus braços.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Fechado na sala


Sempre que abro as janelas, fecho as portas a um romance.
As duas só sonham em estar juntas. E eu, asmático de amor em solidão, insisto em quebrar o namoro com muros de ar e som.
Devia acorrentá-las uma à outra. Mas nunca acreditei em finais felizes. E podia dar-se a tragédia de os escrever.

terça-feira, 4 de março de 2014

Pensamentos Divergentes (nº 338)


Dou graças a deus, Mulher
por estas cotoveladas de felicidade que me fazes sentir sem aviso.
Fosse deixado aos meus próprios estratagemas sem outro afazer,
e nunca teria descoberto o tédio
como o mais elevado prazer.

segunda-feira, 3 de março de 2014

Books of lies stacked either side


Aconteça o que acontecer, espero manter a minha compostura enquanto faço um espectáculo do meu inevitável esgotamento nervoso.

domingo, 2 de março de 2014

Coisas Que Um Gajo Coiso (nº663)


Cheguei ao fim de um dia de trabalho à minha rua. Dez da noite. Um vizinho deu-me o cêntimo de conversa habitual. Perguntou-me como ia tudo. Em vez de responder com a constatação "Mais um dia", saiu-me "Menos um dia".
Estou a ficar velho.

Pepitas de fome


"Há amor aqui" disse o velho.

"Há amor aqui para nos inundar, uma veia de amor por descobrir".

Mineiro. 
De amor. 
Escava o seu buraco na terra até não ver um palmo à frente dos seus senis olhos por acreditar que o amor é cego.

E eu, canário de ilusões, a única coisa que faço é musicar inspiração. 
Até ao dia.

Tivesse braços, pegaria eu próprio na picareta.

E matava o velho antes que fosse tarde demais.

Ponto de luz


Da quarta vez que falámos um com o outro, preparei-me para a tua inevitável morte.

Da quinta, para a minha.

São coisas que acontecem quando levamos toda a nossa idade à cintura. Faz parte da migração natural dos anos.
Primeiro, pesam-nos nos pés e começamos a andar neles, espezinhando-os à vontade.
No fim, levamo-los todos às costas e curvamo-nos perante as evidências.
Mas pelo meio... pelo meio fazemos tudo para que o futuro não cresça. Como se soubéssemos que nunca mais a nossa vida iria estar tão perfeitamente centrada.

Ainda me lembro das vezes que testei a hipótese até descobrir que foder não bastava para levar à minha aniquilação total. Que aqueles breves momentos de inexistência profunda seriam sempre passageiros - à procura de estação.

E se eu fosse mais como tu, também seria essa traça auto-imolada correndo atrás de si própria. Cada bater de asa reanimando o interior em brasa, extinguindo-se a si mesma.
Uma vida curta e luminosa. Como é suposto as vidas serem.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Pensamentos Divergentes (nº 337)


Vi-o a atravessar a estrada
e mesmo do outro lado, com ele me cruzei.
Esse eu de mim que não me traz nada.

PAZ!
não é sinónimo de descanso,
mas sim o barulho da minha alma quando embate:
o tom natural que é o meu estado de ataque.

Porque a ausência de conflito
é o que a mim me deixa aflito.
Preciso sempre de ser o ponto inerte
de tudo o que se destrói à minha volta.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Sem factura


Cai-lhe a água na cara. Amontoa ideias como quem constrói Legos. À espera de um barco pirata o leve para um império além-mar.

Queria que a parte mais interessante do meu dia fosse mais do que a fila da caixa do supermercado. Mas a poeira das cordas da guitarra ainda não me faz asma.
Vou dormir mais um bocado.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

É a pronúncia do norte


Querida Lisboa,
Tenho de te confessar que, neste Dia dos Namorados, fui namorar o Porto.
Foram só 4 horas, nada de sério. E já voltei para ti.

Mas devo ser justo e dizer-te que não sei se ainda gosto de ti da mesma maneira.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Pensamentos Divergentes (nº336)


Não sei como tem sido a tua vida.
Que coisas nos aproximam ou afastam.
Nem sei se te posso chamar de irmã ou irmão
sem que me julgues invasivo ou mesmo Bob Marleano.
No fundo, não sei de ti se não
o que poderei saber de qualquer ser humano.

Só sei que de ti, espero o melhor do mundo.
E que de mim, espero apenas acreditar
no que de ti quero esperar.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

On the rocks


Whisky novo, uma pedra de gelo. Quase vinte-e-oito anos à espera. Dá-lhe o primeiro trago.
Chamamos-lhe "trago", porque esperamos que ele nos traga algo.
Quase vinte-e-oito anos.
Segundo trago.

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