Estava aqui pronto a escrever um texto que me libertasse de toda esta raiva que eu sinto. Para aliviar a minha revolta partilhando-a com outros. Mas assim que comecei a tentar escrever a única coisa que sinto é... um profundo vazio. E eu queria gritar tão alto que soltaria a cal das paredes da rua mas de mim só sai este imenso vazio.
A culpa é minha.
A culpa é minha se quero arranjar um emprego e não consigo.
A culpa é minha se quero agora ter condições num país que estava mal encaminhado ainda antes de eu nascer.
A culpa é minha se quero a porra de um futuro e não existe porra nenhuma de futuro pela frente à minha espera.
A culpa é minha se não existe um caralho que eu possa fazer. Foi isso que vocês me disseram, não foi? Estou a ser castigado por um conjunto que opções que não tomei mas que mesmo assim são da minha responsabilidade. E se me queixo chamam-me de mimado, comuna, preguiçoso, egoísta... E nem gritar de volta eu posso porque já não me restam forças.
Nunca fui um aluno brilhante. Mas também nunca fui mau aluno. Não passei por cima dos outros para proveito próprio e, estupidez das estupidezes, rejeitei cunhas porque queria fazer eu próprio algo de mim pelo meu próprio valor.
Mas o mais estúpido fui eu que não percebi logo que eu não tenho valor nenhum. Para vocês eu não presto para nada. Sou só um desperdício de recursos e por isso não mereço melhor do que tenho.
Tenho medo. Muito medo, mesmo. Desta raiva que se embrulhou numa manta de calma e que quer dormir numa cama de indiferença. Deste vazio que é ter em mim um mundo inteiro para dar mas que definha a sós pela morte da esperança. Da esperança de um amanhã e de um lugar para mim neste país.
Esta será, hoje, a minha manifestação a sós e em público. A total desolação de um jovem que poderia ser muito mais do que alguma vez será e que é só a repetição de dezenas de milhares como ele.
É dia 15 de Setembro. Vou à rua marcar presença. Mas algo morreu em mim.