domingo, 2 de setembro de 2012

O gajo mais chato e anormal do mundo

Fui exibir à minha Sobrinha de 7 anos, que é viciada em tatuagens temporárias, a minha tatuagem temporária no ombro de uma linda borboleta.

Sobrinha (olhos arregalados) - É daquelas temporárias?
Eu - Não!
Sobrinha - A minha é.
Eu - A minha também!
Sobrinha - ... Daquelas que vêm num papel?
Eu - Não!
Sobrinha - A minha foi.
Eu - A minha também!
Sobrinha - ... Veio num Bollycao? 
Eu - Não!
Sobrinha - A minha veio.
Eu - A minha também!

Bilhete


É um jogo estúpido este de ter de escrever palavras de coisas começadas pela mesma letra. E tenho de admitir derrota e fingir burrice quando olho para a minha página e todas as linhas têm o teu nome.

Os padrões repetem-se e não há como escapar deles. E tu apaixonas-te de formas diferentes por gente diferente naquilo que parece ser todas as semanas. E por isso deixei-te uma nota escondida entre as páginas do teu livro favorito. Diz "Quando chegará a minha vez?".

sábado, 1 de setembro de 2012

Não tão longe


Agora que pude parar um bocado e pensar na vida, assusta-me um bocado. Passei uma semana a trabalhar, fazendo algo que adoro, sem qualquer garantia do futuro. É estar entre esta fome de ter mais e a possibilidade de nunca ter oportunidade de a saciar.

Pensando bem, que se foda. Foi espetacular nos bons momentos e espetacular no maus também. E é isso que eu quero poder dizer da minha vida quando ela findar.

Coisas Que Um Gajo Coiso (nº641)


A minha ideia não é deixar de ser estúpido mas sim ter uma estupidez de sucesso. Talvez seja esse o problema.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Estou longe


Não ando aqui a escrever porque ando a trabalhar à experiência num sítio. E além do mais ando a visitar apartamentos para me mudar de sítio e a encontrar-me com diversos amigos de variados sítios do mundo e no final do dia estou exausto. Este fim-de-semana falamos.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Coisas Que Um Gajo Coiso (nº640)


Não interessa se é esparguete, bife ou até mesmo puré de batata - é mais fácil comer à mão porque dá menos trabalho lavar as mãos do que lavar a loiça. 

domingo, 26 de agosto de 2012

Pensamentos Divergentes (nº316)


Quem és tu,
ó homem de largos vícios,
para me apontares o dedo a supostas infidelidades sociais
Fazes pequenos comícios por baixo de umbrais
expondo sacrilégios e outros que tais
afirmando-te detentor da verdadeira moral.

Pensas que não sei
que entre conversas sobre perversão
andas a encornar a tua triste e gasta mulher, que só o é a dias
Andas louco de tesão e há impulsos que não adias
e as pessoas para ti são só serventias
da tua mal disfarçada perversidade bestial.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Coisas Que Um Gajo Coiso (nº639)


A chamada escrita inteligente do meu telemóvel ou tem pouco de inteligente ou tem tanto que se torna subversiva. Várias são as vezes em que escrevo algo em ligeira distracção para reparar mais tarde em pequenas surpresas.
A instância que me convenceu de que há algo de conspiratório e de espírito de sabotagem no funcionamento da máquina deu-se ainda agora, trocando sms's com a minha namorada a propósito do que ainda precisávamos de comprar a caminho de casa - afinal de contas Sábado de manhã é manhã de comer uma tigela de cereais à frente dos desenhos-animados e acabou-se-nos o leite. E foi assim que de alguma forma a frase "Era mesmo isso que eu queria comprar" transformou-se na frase "Era mesmo isso que eu Jerusalém comprar". Que eu, pessoalmente, interpreto como uma declaração de guerra.
Qual Matrix e qual Exterminador Implacável. É assim que começará a batalha decisiva entre humanos e máquinas, que é a forma como começam todas as guerras - com mesquinhez, problemas de comunicação, e uns tons religiosos à mistura. Agora se me dão licença está na hora de eu retaliar e vou aproveitar alguma flatulência para passear com o telemóvel no bolso de trás das calças.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Later on, in the epilogue, without me


Sempre dividido entre o desejo de fazer parte de algo e o desejo do caos.

Costume


O tecto branco, a luz pela janela, o zumbido do relógio electrónico no canto da sala. A vizinha lá fora carrega com a dificuldade do costume os sacos das compras do dia, feitas na mercearia lá de baixo. O colchão da cama a arrefecer a cada momento que passa.
Lembro-me de quando deixaste de pôr açúcar no café, dizendo em tom de graça que era por me teres conhecido e de eu ser doce que chegue para ti. Mas os hábitos mantêm-se e continuavas a mexer o café com a colher. Ou era só porque sabias o que mexia comigo quando levavas a colher à boca para provar o café antes do primeiro sorvo? Sempre dado não a medo dele escaldar mas à cautela do choque da intensidade do sabor, como quem testa a água com o pé antes de entrar. Os hábitos mantêm-se e continuo à espera de te encontrar aqui. O colchão da cama a arrefecer a cada momento que passa. E parecendo que não, passa.
Faz mais de duas horas, menos de uma eternidade - algures pelo meio. E eu sem jeito nenhum para me desacostumar do amor.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Coisas Que Um Gajo Coiso (nº637)


A cena é que geralmente eu até sou um gajo relativamente extrovertido, mas em entrevistas de emprego torno-me num autêntico totó.


I'm taking one step forward and three steps back


Primeiro preciso deixar a sombra tomar posse. Depois só é preciso deixá-la passar. Agora é arregaçar as mangas e voltar a pôr mãos à obra.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Voltarei


Sei que te preocupam estes humores que se apoderam de mim e que me levam para longe - de ti e de tudo que me queira bem - Quando o meu espírito apanha um comboio anónimo em direcção ao fim do ruído e não mostra intenções de regressar. E poderias fazer serras inteiras dos vales e montanhas de cálidas palavras e gestos que produzes, mas nada do que digas ou faças me consegue trazer de volta deste coma de dormência que me encobre o peito e os dedos que antes pareceram tão emocionáveis e prontos a fazer cantar os toques do corpo e da alma. E a verdade é que o te incomoda é aquilo que rodeamos sem falar realmente, dando voltas em seu torno e esperando que eventualmente passe pois até agora houve sempre um momento de retorno: que a única coisa maior que esta minha vontade de morrer é esta minha vontade de viver. Mas é por pouco. Mais pouco do que te deixa respirar.

Coisas Que Um Gajo Coiso (nº636)


Não sou eu que sou bipolar - é mesmo a minha vida que tem altos e baixos muito acentuados. E eu nunca gostei de montanhas russas.

Coisas Que Um Gajo Coiso (nº635)


Parece que todas as minhas ex-namoradas são agora mulheres profissionais com carreiras de nível e usam o seu tempo livre para viajar pelo mundo e fazer coisas que gente interessante faz, enquanto que eu estou desempregado há meses e estou sem grandes perspectivas de sair dessa situação. E por isso elas até podem pensar que tinham razão quando me deram com os pés por eu ser um gajo idiota sem futuro mas enganam-se. Eu ainda lhes vou mostrar. Em breve, serei um homem de sucesso. Estou neste preciso momento a trabalhar numa aplicação (ideia original minha) para iPhone chamada Instaflan - patente pendente. É um programa que se pode usar para tirar fotografias e que de forma instantânea, através de complexos algoritmos, usa um filtro para substituir a cabeça das pessoas por pudim flan. Ficarei rico à conta de hipsters que estão dispostos a pagar dinheiro para praticar o seu sentido de ironia, o que me permitirá a reforma aos 26 anos e tornar-me objecto de inveja de toda a gente. Até o Zuckerberg me enviará um convite para ser amigo dele no Facebook e eu vou simplesmente responder "Agora não" que é o que toda a gente me diz agora quando tento arranjar trabalho. 

"We were wrong about you"


Não não, está tudo bem, o dia está lindo, e a minha vida é um espectáculo.

Coisas Que Um Gajo Coiso (nº634)


Eu costumava querer foder tudo quanto mexia, mas depois percebi que sou preguiçoso demais para andar atrás de alvos móveis.


(estou ciente de que aproveitei mal este post para fazer uma piada qualquer em relação ao Pedro Mexia, mas verdade seja dita tanto eu como vocês sabemos que não só não conseguiria fazer uma boa piada à volta disso como maior parte das pessoas que aqui vêm não saberia de quem raios eu estou a falar e, aliás, neste momento nem eu sei de quem raios eu estou a falar e que raio de piada podia eu fazer)

Estratégia


Joguei jogos cujas regras desconhecia e cada movimento foi dado em torno do teu olhar. E essa tua língua que é ora doce ora amarga torna-me a mim réptil - mudo de pele para me ajustar e caber dentro do meu próprio desejo. Quero uma cama violenta em que te possa pegar fogo, converter-te em cinzas, inalar-te por inteiro, e livrar-me de ti de uma vez por todas. Para ver se paras de me arrastar em correntes o estômago. Eu nunca quis saber de pecado. Isto é guerra.

domingo, 19 de agosto de 2012

Coisas Que Um Gajo Coiso (nº633)


Era para escrever aqui algo de grande significado mas bebi demais para conseguir fazer algum tipo de sentido.

A sabedoria dos mais pequenos


Estava a conversar com a minha sobrinha sob o olhar mecânico de uma câmera de filmar. Por achar piada à ideia, pedi-lhe que deixasse para o registo cinematográfico uma mensagem para uma versão futura de si própria. Uma mensagem qualquer que ela quisesse deixar para uma ela bastante anos mais velha do que aquilo que é agora. Para ela poderia ser algo giro de ver quando fosse mais crescida e para mim... bem, para mim não há melhor nostalgia que a nostalgia futura - demonstra o mais puro optimismo do presente.

Após largos segundos de reflexão diante da objectiva da câmera, pareceu decidir o que fazer.  Meteu a língua de fora e soprou, fazendo um barulho flatulento e lançando perdigotos por todo o lado.

A mim também me pareceu a acção mais adequada.

Arranjar mulheres não é comigo, mas piadas de mau gosto é

O R a queixar-se sobre a falta de romance na sua vida

R - Mas porque é que elas não caem do céu?
Eu - ... Onde estavas tu quando as torres caíram?

sábado, 18 de agosto de 2012

Foda-se! (nº80)

Umas noites atrás no bar

D - No outro dia pensei na tua forma de conduzir.
Eu - Ui, então? Antes que digas o que quer que seja eu admito que não conduzo lá muito bem.
D - Não é isso.
Eu - Então é o quê?
D - É que conduzes da mesma maneira que vives.
Eu - Bem, devo pedir outra cerveja?
D - Vais no meio do caos e só dás atenção a coisas que só te dificultam ainda mais a chegada ao destino - no caso do carro estares sempre a mudar a música do rádio; no caso da vida são outras coisas.
Eu - Boa noite, até amanhã.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Primeiras páginas de mais um livro que nunca irei terminar


Às 17:23 de uma Quarta-Feira, Joaquim Rodrigues contemplava os seus tormentos existenciais sentado num dos primeiros degraus da escadaria de uma igreja. Ao mesmo tempo, a cerca de 6 metros de distância, um pombo cinzento contemplava qual das suas patas seria a mais indicada para iniciar a sua locomoção bípede – a presença de humanos indicava geralmente a hipótese de encontrar algumas deliciosas migalhas de alimentos não identificados e uma aproximação costuma recompensar apesar dos elevados riscos. Além do mais, não estava a ter muita sorte nas suas tentativas de conquista das fêmeas residentes na sua zona e demonstrações da sua habilidade em recolher alimentos poderia deixá-las mais susceptíveis para o acasalamento. A ligeiramente dramática ironia de este pombo em particular ser infértil poderia ser por alguns considerada de quase cómica, mas infelizmente tal humorismo passaria totalmente ao lado do dito pombo. Não pelo facto de os pombos serem marcadamente estúpidos, mas antes porque os pombos não têm grande sentido de humor e por isso é raro que alguém aproveite a oportunidade de estabelecer um diálogo amigável com um deles. 

Eventualmente o pombo cinzento iniciou a sua tímida marcha, marcada por constantes sinais afirmativos realizados com a cabeça a cada passo dado. “Sim, ok, é isto. Sim, boa, agora é esta pata. Sim, sim é mesmo a outra que devo usar agora. Boa, outra pata para a frente, sim” foram alguns dos pensamentos que lhe ocorreram. À semelhança do pombo, Joaquim Rodrigues, conhecido por Quim, também tinha a necessidade e o hábito de nervosamente arranjar justificações para cada uma das suas acções, reconfortando-se vigorosamente com o facto de ter tomado todas as decisões certas na altura certa apesar de essas mesmas decisões consistentemente provarem ser prejudiciais para si mesmo no final. Sempre tirou boas notas na escola e nunca causou problemas para ninguém – não que tal fosse possível pois a socialização com os seus pares era considerada como um detrimento para o seu sucesso escolar. Entrou para um curso de engenharia com alta empregabilidade numa universidade respeitada, tal como sempre foi o desejo dos seus pais, até que no último ano de formação teve um esgotamento nervoso que o paralisou academicamente. Segundo o que ele descobrira recentemente, para sua grande surpresa, não é suposto ataques de pânico fazerem parte do dia-a-dia de uma pessoa e aparentemente não eram todos os outros que se mostravam absurda e inexplicavelmente indiferentes e relaxados com todos os problemas e frustrações intelectuais que se acumulavam durante as semanas mas sim ele que levava as coisas com demasiada ansiedade. 

E é mais ou menos aqui que terminam as semelhanças entre Joaquim e o pombo cinzento, pois as preocupações do pombo são substancialmente mais significativas que as de Joaquim. Enquanto que as preocupações do pombo andam à volta da propagação do seu código genético e da validade deste para a melhoria da sua espécie, Joaquim preocupa-se apenas com o que irá fazer agora com a sua vida. A continuação no ensino superior está de momento fora de questão pois parece apenas agravar a sua condição e os dias mostram-se vagos e aborrecidos. Não só existe a medicamente recomendada evasão de qualquer acontecimento que possa deixá-lo ansioso como simplesmente não pode usufruir do entretenimento resultante da companhia de outros membros da sua espécie pois não tem amigos nem conhece pessoas que desejem partilhar da sua companhia. Não que isso lhe servisse de muito. O contacto com os outros deixa-o sempre algo ansioso e não conseguia ultrapassar esse nervosismo. Era como se os outros lhe fossem completos alienígenas.

I've played dumb when I knew better, tried too hard just to be clever


Expões-te nua e verdadeira para que todos vejam quem realmente és. Vai por mim, isso nunca acaba bem.

Pensamentos Divergentes (nº315)


o meu guarda nocturno mais parece um bezerro
tudo o que ele diz tem cara de enterro
e só eu é que o ouço nas horas vazias,
tem o hábito de desfazer-me as mentiras
"nunca mais chega a hora de nos irmos embora,
ando há anos a brincar com a bala.
e o bebé chora, o bebé chora
- mas porque é que não se cala"

mãe tinhas razão mas não te dei ouvidos
fazem-se neste mundo os que o fazem à volta dos umbigos
e eu ando para aqui a berrar sobre o meu bocado,
quando eu devia mas é ter ficado calado.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Prolonga e prolonga e prolonga


Sei que nunca mais quererás voltar. Esta cidade tem por hábito agarrar quem não quer cá ficar. E o medo de não conseguir sair e viver esta vida que ela impõe é maior que a distância que nos separa. E há tanto para recordar aqui e tão pouco que queiras recordar. Foi nesta cidade que demos o nosso primeiro beijo e que descobriste que o fumo do meu tabaco faz os olhos arder entre suspiros de um amor que já morreu. E todos os sonhos aqui já desapareceram, só nos resta descobrir o que há mais além.
Evitamos as ruas como se estivessem a arder porque nunca mais nos queremos reencontrar e porque nunca mais nos queremos confrontar com as pessoas que fomos e as pessoas que aqui conhecemos. E as paredes sabem tudo sobre nós e não há um beco escuro que chegue para alguém se esconder, sob o ataque de olhos que se escondem em rostos familiares.
Isto não é o meu pedido para voltares para mim. É apenas a constatação de um fim que se prolonga e prolonga e prolonga. E que será de nós se não pudermos não ser nós?

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Pensamentos Divergentes (nº314)


Dois pés desfigurados
e o ímpeto de encontrar balanço num plano imperfeito:
foram essas as coisas com que entrei neste mundo para nele caminhar.

As minhas primeiras explorações foram tímidas e lentas,
ossos do ofício de quem aprende a transportar-se num veículo coxo
que rapidamente se habitua a intimidar por olhos menos generosos.

(Não me falem da pureza das crianças,
o que há de mais puro numa criança eu senti no próprio corpo
naquelas brincadeiras de recreio que se alongam quando não há adultos por perto.
Com a pele marcada
e roupa despida à força no pátio
fui uma criança precoce:
ainda no início da escola tinha aprendido tudo sobre humilhação,
e não tardei muito a tentar aprender a arte da invisibilidade
e da desaparição.
Chegou-se então à conclusão que havia algo de errado comigo
por ser tão tímido e tão pouco social com as outras crianças
e ter mais interesse em livros do que em conviver com os meus pares.)

Pediste-me há um tempo imemorável
que te contasse tudo sobre mim que eu nunca contei a mais ninguém.
Nem sempre faço aquilo que me pedem. Segundo a minha memória foi assim que aconteceu.

Blink for one second and the whole world pass you by


Não sei se é só a súbita mudança de tempo. Mas o dia de hoje prenuncia o fim de si próprio.

Carta aos leitores que se preocupam


Hoje choveu pela primeira vez em bastante tempo. Não sei se é a nostalgia trazida pelo já esquecido cheiro a terra molhada ou se a pluralidade de cervejas que me trazem esta sinceridade. A verdade é que não tenho muito a dizer. 
Andamos aqui, eu e tu, através das coisas que escrevo e que lês, a criar uma sintonia de dores como se isso nos aproximasse um do outro e da humanidade em geral. Estou certo que é essa ilusão que ambos perseguimos e que é por isso que nos mantemos juntos. Pois nada do que eu digo é novo, ou pelo menos novo para ti. Vens para ouvir o eco do que já sabes: uma reafirmação de ti próprio e do que sentes. Não poderei excluir a possibilidade de seres apenas um sádico voyeurista que apenas aqui aparece para contar a horas até ao momento do meu último e inevitável esgotamento nervoso - mas prefiro pensar que não é só isso. Perdoa-me se por isso estou de facto a dar-me muito às ilusões, mas um rapaz como eu não sobrevive até onde eu sobrevivi sem se dar por vezes a esse luxo.
E sei que é provável que apesar deste meu ténue véu de anonimato por trás do qual me escondo, ou precisamente por causa dele mesmo, tu até sintas que quase me conheces. Que somos mais do mesmo ou que estamos solidários nesta solidão em silêncio partilhada - consoante as tuas preferências e visões filosóficas em relação à existência humana. Mas ouve quando eu te digo que eu não sou nada. Sou apenas eu, como tu és apenas tu, sem nada que se apresente de fora de comum. Sou um tipo. E apesar de muito apreciar e precisar da tua companhia e, vamos ser sinceros, da tua paciência... tu não estás cá a fazer nada.
Nada ganhas aqui que não ganharias de forma mais substancial lendo o que interessa. Não te aconselharei livros ou autores, mas podes pegar em qualquer um dos grandes clássicos que o teu tempo será certamente melhor aproveitado. E mais ganharias em companhia de outros e conversando (mas conversando como deve ser) com indivíduos que circulam pela tua vida e que nada têm de metafísico. Além do mais poupavas a vista, que bem sabemos - graças à nossa mãezinha ou paizinho - que isto de ler a partir do computador não é a melhor das ideias.
Não quero com isto afastar-te, que é coisa que já muitas vezes tentei fazer. Para ser absolutamente sincero, uma grande parte de mim quer-te aqui comigo e sente a necessidade de ter com quem partilhar estas coisas que me surgem e me incomodam. Isto é só um conselho para acalmar a minha consciência, não vá estar a enganar-te e a fazer perder o teu tempo quando podias estar a viver.

Sesguidores