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domingo, 14 de junho de 2015

Canção de embalar


O melhor é viver esta morte que pede colo de braços estendidos. Aceitar de bom grado o trago de tristeza que adormece a boca e ensurdece o embalar de amor do sono que evitamos. Passo a passo sem pisar as falhas - na dança de quem não consegue aguentar mais um único olhar. Esticados em linhas de som, à espera de secar no vazio do sempre. Tudo melhor que ficar preso a esta veia de dentes cerrados e fome de começar de novo, começar de novo, começar de novo.

O melhor é viver esta morte que pede colo de braços estendidos. Trocar a ordem do cagar e transformar a merda em ouro sem sujar as mãos. Não fosse ser português falar de tudo o que nos faz tristes sem mostrar mesmo o que nos vai na alma. Encobrir o pior com o apenas mau, um confortável leito de porcarias que fazem todo o sentido por sermos quem somos. Agora tapa a boca. Vai dormir.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Dois segundos


Quero chegar a velho para olhar para ti nos olhos e dizer:
"Olha para nós. Capazes de saltar grandes edifícios, mas ainda não aprendemos a encurtar a distância entre os dois estalidos de vida que os nossos corpos criaram".

Quero ainda antes disso aprender a usar a linguagem de um beijo a uma língua só. Falá-la sem que seja preciso outra boca e com essas palavras húmidas de nada dizer tudo o que não precisa de ser dito mas que precisa ser ouvido, antes que as ondas cheguem e arremessem os nossos ossos pela crosta terrestre, fazendo do nosso planeta uma maraca solitária em torno de um sistema solar.

Quero dormir em flores em pranto. Fazer de tudo o meu sol-e-dó.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Dragões e Castelos


Tira as pedras de dentro dos ouvidos e ouve-me gritar.

"Não, mãe. Eu não quero mais ervilhas. E não me mintas: lá fora há um dragão para eu montar".

A primeira vez que me lembro de lembrar, é à mesa. Dias em que em que a tristeza escorria lentamente em gotas nas janelas enquanto raspava o prato, plástico como a casa em que morámos. E se a tristeza não chovia cá dentro não é por causa da longa mentira de que as crianças só sabem ser felizes. Era porque ainda não tinha altura que chegasse para lhe abrir janela.

Mas é como toda a gente diz. Os miúdos crescem rápido.

Aos 8 anos. Foi aí a primeira vez que me lembro de querer morrer. E a partir daí, aprendi a não o dizer. Porque o trabalho de um adulto é proteger a criança do mundo. O trabalho de uma criança, é proteger os pais dela própria. E do que ela faz um adulto sentir.

Está tudo bem. Esteve sempre tudo bem. São só coisas da minha cabeça.

Porque o meu coração é um T4, com duas aurículas e dois ventrículos onde qualquer um pode morar sem se fazer ouvir. E o meu amor é um ventríloquo que só grita pela boca dos outros. À espera de sussurros de ecos que queiram morar entre paredes, saltitando até ao tecto para um dia rebentar.

Entra.
Há espaço que chegue.

E lá fora há um dragão para montar.

domingo, 29 de março de 2015

Quando o amor toca


Dá-me um amor que não se cala. Um amor que me acorde pela manhã antes do despertador tocar e que me mantenha acordado de noite até à exaustão. Um ruído persistente que não deixa o coração em paz e que ponha os vizinhos a bater nas paredes em desarranjo. Quero um sofrer incómodo que fale mais alto que tudo o resto. Um barulho que afogue todos os outros. Até que um de nós ensurdeça.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Trinca


Só quando saíste da minha boca é que ouvi o disparo.

Um reflexo no escuro.
Uma silhueta da alma de não-sei-quê a pairar entre os dentes. O cano do revólver a fumegar.

Tudo são palavras. Mas nos seus espaços o abismo. E pudéssemos nós entrar nele. Cortar a linha salva-vidas num gerónimo mudo e tropeçar no nada. Entrar nele para talvez não voltar.

Talvez aí fosse uma questão de tempo até que o tempo não importasse.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Com amor, M.


Fui a única a segurar a tua mão enquanto morrias. 

Os teus olhos de medo flutuando à tona dos teus verdadeiros azuis, como se mais nada alguma vez tivesse existido. Rodopiando em lentos carroceis avariados, num movimento sincronizado com o teu primeiro - e último - sorriso ao contrário. 

É sempre essa a parte que me deixa mais triste. E é também a minha preferida. O amor é mau quando acaba. Mas acaba sempre. 
Eu sempre precisei de companhia. Mesmo que breve, mesmo que não desejada. Ser amada de volta é raro, mas é bom ter alguém para desejar.

Em troca, podes esquecer todas as tuas lutas e dívidas. Que a última dívida que cumpres, é aquela que te dão ao nascer.


sábado, 13 de dezembro de 2014

O espelho


Contam-se pelos dedos o número de ossos que parti a esmurrar paredes. E tua cara lá pintada a vermelho, beijando em mudo as tuas eternas palavras. Um ódio que cresce, mas não aparece - a velha história do costume, com duas pernas que lhe falham e uma memória que já não é o que era. Para que fique acordado à espera de esquecer esta indigestão de sonhos. Este ouriço-cacheiro de lutas à flor da pele.

Deixa-me como a meia solitária no canto do quarto. Como o depósito de vinho barato no fundo do copo. Lançando desejos às costas de camelos para atravessar o Deserto que Sara deixou.



terça-feira, 9 de dezembro de 2014

A(u)ditivo


Semáforo. Luz. Passadeira. 

Ninguém dava por nada enquanto enviavas o teu amor em tanques de guerra fazendo marcha-atrás por toda a cidade. Tentando fazer piruetas só com os cotovelos e meio bolso de fé. Como as centopeias de palavras que te habitavam o cérebro. Como as senhas varridas do chão do supermercado. 
Como a primeira vez que sentiste que um beijo não tinha sido uma arma.

Todo o vazio à tua volta para te dizer aquilo que já sabias. Todos têm uma canção entre as orelhas que mais ninguém consegue ouvir. E o problema não é morrer sozinho. É não ter quem a oiça a tempo.

domingo, 16 de novembro de 2014

Não procurar


Não me leves a mal. Aliás, não me leves de todo se possível. Estou bem onde estou e tudo aquilo que digo deve ser tomado em intravenoso: gota a gota e nada se a saúde o permitir.

sábado, 25 de outubro de 2014

Aeroporto


Só quando saíste é que dançou o pó que me alcatifava o pensamento.
Dois pássaros ou dois leões. Um animal contra o outro ou é amor ou morte. Nunca a indiferença do universo. Aquilo que chamamos de paz.

Descansa o atordoar dos lábios. 
Enquanto o mar pestanejar
haverão sempre salpicos a beijar as tuas pernas.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Deslize


Sempre seguindo os teus movimentos. Piso as tuas pegadas para que o chão por baixo de mim não rompa, afogando-me em doçura. 

Há quem diga mal do gelo. Da sua frieza. Mas há dias em que ele é a única coisa que nos mantém vivos. 

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Menina Chorona


Lisboa vê-se encharcada em lágrimas. Sem saber se de rir ou de chorar, decide que o melhor é rir para não desabar. 

Enquanto isso, os ratos entram em desambandono por não terem nada flutuante para abandonar. Carros confusos travestem-se de jangada e chapinham em lagoas improvisadas, como calhaus com bóias de aprendizagem na natação. Sirenes histéricas uivam de minuto a minuto e o lobo avisa pedro que a repetição é que o vai danar. E na minha rua, os putos a cantar:

Chuva Chuva vai-te embora
vai depressa e sem demora,
Vai bater a outra porta
que a vizinha já está morta
Morreu de susto a coitada
depois de morrer afogada,
Chuva Chuva vai-te embora
que quem nada vai na hora.


sábado, 30 de agosto de 2014

Terminal


Segurei o Sol numa fotografia. Perdi-te logo a seguir.

Dois cigarros no casaco e uma frase mais usada que estas paredes de encosto que vadiam a cidade.
Ainda sou o mesmo. Mas ultimamente os meus ouvidos têm companhia. Neles mora uma música gloriosa que mal dá para ouvir.

Brindo à tua razão. O homem não muda. Só muda aquilo que escolhe para o seu copo.

domingo, 24 de agosto de 2014

O tempo será todas as feridas


Quis brincar por entre os átomos fixos do ar que nos é permitido. Escondido das parábolas de rédea curta que giravam em torno dos asnos. Eu, o fora-da-lei. O heróico anti-herói de metafórica espada na mão e capa ao coração. Masturbando vértices invisíveis nos cantos de um universo só meu. Passando os meus dias dias a respirar o vácuo e a soprar dragões de papel - monstros finitos de proporções mais finitas ainda. Tudo para te ver o não visto e me rever nesses olhos talhados pelo meu próprio insaber.

Inventor de palavras.

Caloteiro literário. 

Mentiroso no geral.

Tudo o que alguma vez quis foi tudo o que nunca me pertenceu. 
Assim será.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Celeste


Os dias passam como rochedos. Mordiscam os céus, que voam insossos num zapping celestial de quem só sabe o que não quer ver.

A saudade é pior carteiro do mundo.
Vem sempre amanhã.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Amor Polvo


Queria escarrar-te esse amor de volta. Esse amor veneno que decidiste atestar em mim, como quem mecanicamente conta o passar de batidas num mostrador invisível de vida em movimento. Esse amor que se agarrou no fundo, como um pedaço particularmente vingativo de uma pipoca  - e eu não tenho nem os dedos suficientemente compridos nem o reflexo de vómito suficientemente amestrado para o circuncisar de dentro de mim. 

Agarrou-se aos meus ossos. Um polvo de aflição que abriu toca no meu tórax. Às vezes trato-o até como um amor de estimação. Outras, inclusive, vem quando o chamo pelo nome. E fecho a janela para não ouvir o barulho lá fora.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Piromania


Agora é noite.

Entra no teu sarcófago de lençóis. Beija na fronte a tua luta, a guerrilha de arritmias em corações. Encerra os sonhos em cadeados e engole a chave. Deixa o estômago desejar por mais. O que o estômago anseia é sempre mais fácil de digerir.

Deixei em tua casa o papel inflamável das minhas emoções. Não te sei contar quantas. Nem quantas noites elas me têm trepado as costas em suores inversos. Como espelhos do caminho que as minhas sinapses percorrem ao lembrar-se de ti.
Lê, se quiseres, como quem acende um cigarro. 

Sempre tiveste de me pedir pelo isqueiro.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Passo em falso


Agarra-me pelos pulsos. Acorrenta-me a memórias inescapáveis. Torna-me abismo de pernas - asas de traça em fuga da centrifugação do abdómen dobrado.

Brinca. Cospe-me o teu ácido cítrico na boca e mastiga-me o olhar. Um paquidérmico Aleluia em queda livre.

Segura-me nos lábios.

Antes que caia no abismo.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Conta-me, mas não contes comigo


Tenho pensado no estendal da vizinha de cima. Nisso e nesta tragédia que é só sabermos dizer a verdade a mentir. De usar estes fantoches que habitam a nossa boca para teatros de metáforas e pantominas de segredos óbvios.

Só queria falar para o boneco. 
É melhor que falar comigo apenas.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Desabafo de Menino


Saber que me fizeram assim. No meu reino, não há espaço para ser menos que o mundo. Dois dedos de conversa, uma testa inteira de falhanços para digerir durante a vida. Para a merda querer ser mais que merda, precisa primeiro saber que é merda, não é mãe? O problema foi não te ter dado ouvidos em tudo. Fosse eu igual ao fantasma que pariste nessa memória sonhada por todas as mulheres que sofrem por nossa causa. Ingratos desde o primeiro pontapé. Cagamos desilusão desde a primeira fralda e nem o sabemos se não nos for dito o resto da vida. Serei sempre menos homem. Menos gente que aquilo que devia ter nascido de gente.

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